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"Uma personagem de videogame salvou a minha vida"

Josué Calixto
Ully Uchoa faz cosplay de Mercy, personagem de "Overwatch" Imagem: Josué Calixto

Giovanna Breve

Colaboração para o START, em São Paulo

2019-07-07T04:00:00

07/07/2019 04h00

Quando a cosplayer e estudante de Moda Ully Uchoa, 25 anos, estava na pior, chegou a pensar em suicídio. Ela viveu um relacionamento abusivo, sofreu com uma depressão e uma doença repentina da irmã. Foi quando um anjo da guarda apareceu em sua vida: a personagem Mercy, de "Overwatch".

No jogo de tiro baseado em times da Blizzard, o objetivo de Mercy é salvar: ela dispara raios curativos, pode voar em direção aos aliados e até ressuscitá-los. Ully se apaixonou por Mercy e, desde então, mudou de vida.

A história de Ully mostra como os videogames podem ter um impacto positivo em nossas vidas. Às vezes, até nos salvar.

"A Mercy me fez pensar nas pessoas que me davam forças todos os dias e que me motivam a continuar insistindo, vivendo, e que lá na frente tinha algo melhor pra mim. Que, de alguma forma, eu podia ser a heroína e a inspiração de alguém", conta a estudante.

Divulgação
Em "Overwatch", Mercy é uma suporte que cura e ressuscita os aliados Imagem: Divulgação

Em 2016, Ully estava passando por um momento conturbado por causa de um relacionamento abusivo. Ela conta quando percebeu que seu namorado era ciumento.

"Por ter dito que fui afim de uma amiga, ele me mandou 75 mensagens seguidas dizendo o quanto estava decepcionado comigo e que o tinha traído, sendo que na época eu estava solteira".

Os primeiros sinais do controle excessivo por parte do garoto vieram logo nos primeiros sete meses de namoro, que a privaram de ter contato com amigos e até a própria família.

"Moro em Fortaleza, mas a minha família é do interior do Ceará, e todo final de semana eu ia para lá. Mas ele começou a exigir que eu ficasse com ele, até chegar ao ponto de eu ficar quase um ano e meio sem ver a minha mãe e irmãos", relata Ully.

Ela sempre tinha que estar ao lado do antigo parceiro, e essa pressão piorou os problemas que já tinha de depressão, ansiedade e síndrome do pânico.

Eu não estava sabendo lidar com uma carga emocional tão grande e, na época, o que se passava na minha cabeça era me suicidar
Ully Uchoa

Alguém chamou um médico?

Ully joga videogame desde pequena e foi incentivada por amigos a experimentar "Overwatch", que tinha sido lançado poucos meses antes. Foi quando conheceu a personagem Mercy, ou Dra. Angela Ziegler. Na história do game, ela é uma médica que se veste de anjo, e sua função na partida é de suporte. A heroína usa seu ultimate (poder especial) para salvar seus companheiros dizendo seu bordão mais famoso: "heróis nunca morrem!".

"Quando joguei com a Mercy pela primeira vez e a ouvi usando a ultimate, nossa...eu paralisei na hora, sabe? Ela me fez pensar nas pessoas que me davam forças todos os dias e que me motivam a continuar insistindo, vivendo e que lá na frente tinha algo melhor pra mim. Que de alguma forma eu podia ser a heroína e a inspiração de alguém", conta.

Foi um processo muito longo, mas que eu precisava passar. Foi uma transição
Ully Uchoa

A partir daí, Ully refletiu sobre tudo o que estava passando e percebeu que, antes de curar o próximo, precisava ser curada. "Decidi que era hora de procurar outras pessoas para pedir ajuda sobre tudo o que estava acontecendo comigo e fui a um psicólogo. Foi um processo muito longo, mas pelo qual eu precisava passar. Foi uma transição".

Heróis nunca morrem!

Arquivo pessoal/Ully Uchoa
"Heróis nunca morrem!" é uma das falas de Mercy em "Overwatch" Imagem: Arquivo pessoal/Ully Uchoa
Em 2017, Ully decidiu expressar o impacto da personagem em sua vida e colocou na pele a frase de Mercy. Só que poucos meses depois, novos problemas apareceram e colocaram em prova se ela seria uma anja para quem mais precisava. A irmã mais velha, Moésia, foi diagnosticada com câncer de mama, o que acabou coincidindo com o período em que Ully havia decidido não botar mais um fim à própria vida.

A partir de então, o ambiente no lar das irmãs se tornou fúnebre, segundo a jogadora. "Eu tinha que me manter firme por ela, fazê-la sorrir, deixar as coisas um pouco mais suaves e fáceis de lidar. Eu pensava nas palavras da Mercy para me fortalecer e poder fazer o mesmo com o restante da família". Após seis meses de tratamento, felizmente, a irmã foi curada da doença.

Arquivo pessoal/Ully Uchoa
Ully passou a fazer cosplays de Mercy Imagem: Arquivo pessoal/Ully Uchoa
E foi dentro da comunidade gamer que Ully recebeu apoio de jogadores durante esse período tão conturbado em sua vida, principalmente no chamado Bondão das Minas, grupos de mulheres que jogam "Overwatch" e organizam jogatinas, treinamentos e até mentorias para quem quer se tornar pro-player.

"Muitas vezes, elas foram compreensivas dentro do jogo quando não joguei tão bem por causa de problemas. Caramba, o quanto eu já desabafei com elas sobre meu relacionamento anterior", relembra.

Apesar do ambiente tóxico cheio de "haters" e misoginia que contamina parte da comunidade gamer, Ully recebeu muito apoio dos amigos que fez online e, decidida, colocou um ponto final no antigo namoro. Sim, ela passou por toda a barra com a doença da irmã e ainda estava no relacionamento abusivo. "Quando a gente terminou eu fiquei aliviada, foi como se tivesse tirado um peso nas minhas costas, do que tava me matando", diz Ully.

A personagem que salvou minha vida do suicídio estava salvando a vida de outras pessoas, como a minha irmã
Ully Uchoa

Em 2018, após um ano da doença de Moésia, "Overwatch" criou a Campanha Mercy Rosa, em que a personagem tinha uma skin da cor referência do combate ao câncer de mama. O dinheiro da compra da skin, camiseta e outros cosméticos dentro do game seriam doados para a instituição americana Breast Cancer Research Foundation (BCRF). Ao longo da campanha, foram arrecadados cerca de US$ 12 milhões para pesquisas contra a doença.

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Skin de Mercy fez parte de uma campanha beneficente contra o câncer de mama Imagem: Divulgação

"Quando eu vi essa campanha eu chorei muito, porque a personagem que salvou minha vida do suicídio estava salvando a vida de outras pessoas como a minha irmã. Isso me impulsionou a doar", declarou Ully.

A estudante de moda hoje está melhor do que a Ully de três anos atrás e incorporou de vez a sua Mercy interior ao fazer cosplays da personagem. E a tatuagem, que já tinha um significado forte, agora carrega uma importância ainda maior.

"A tatuagem foi motivada pelo que passei, mas depois da doença da minha irmã e da campanha da Mercy Rosa, a mensagem acabou sendo uma coisa para ela. A minha irmã foi a minha heroína por muito tempo, foi uma inspiração para mim quando criança e nossa... [voz embargada] é uma coisa que mexe muito comigo. É da minha família, faz parte da minha história e ela esteve ao meu lado quando precisei muito", diz Ully emocionada.

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