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"Kingdom Hearts 3" traz magia da Disney aos games, mas tem história confusa

Rodrigo Trindade

Do UOL, em São Paulo

2019-02-01T04:00:00

01/02/2019 04h00

Fãs da Disney têm uma abundância de opções de entretenimento nos cinemas, canais de TV e Netflix, mas nos videogames essa representação diminuiu muito ao longo dos anos. Se você é um desses e sente falta de jogos desse tipo, fique sabendo que "Kingdom Hearts 3" irá atender esses desejos, ainda que ele seja um game antiquado em diversos sentidos.

Lançado no último dia 29 para PlayStation 4, Xbox One e PC, este é o terceiro episódio principal da confusa franquia que mistura elementos dos diversos universos da Disney, jogos da Square Enix e personagens originais. Revelado na E3 de 2013, "Kingdom Hearts 3" é nominalmente a sequência direta do RPG de ação lançado para PlayStation 2 há quase 13 anos, mas na realidade o sucessor de "Dream Drop Distance" na cronologia da série.

Neste meio tempo, cinco jogos originais da franquia foram lançados, expandindo (e complicando) o enredo. Isso significa que, se "Kingdom Hearts 3" for o primeiro game que você tiver contato da série, espere bastantes dúvidas no meio das aventuras dos protagonistas Sora e Riku, que têm a companhia de Pateta, Pato Donald e Mickey, entre outros personagens da Disney, ao longo da jornada.

A apresentação visual e representação de figuras queridas da Disney é a melhor parte do jogo, que tem cores vibrantes e uma grande variação de ambientes. A motivação no princípio da história é recuperar as forças de Sora, enfraquecido por conta de eventos ocorridos em episódios anteriores da franquia. Para isso, o jogador viaja por mundos temáticos, uns criados para a série e outros adaptados dos cinemas.

Uma viagem pelo universo

A história de "Kingdom Hearts 3" é estruturada em capítulos que giram em torno de pequenos planetas de temas únicos. O primeiro deles, por exemplo, se passa no Olimpo, fase baseada no desenho Hércules. Cada capítulo tem poucas horas de duração e apresenta um mapa de tamanho médio, com progresso linear.

A fórmula funciona bem, já que cada mundo tem características bem únicas, mas não oferece tanto conteúdo para explorar. Ainda que existam baús com itens escondidos pelas fases, não há necessidade de gastar horas extras atrás desses segredos. Percorrer esses ambientes só pela duração da aventura de Sora e seus amigos é o suficiente, porque apresenta novidades sem que elas cansem e virem um exercício repetitivo.

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Cada mundo de "Kingdom Hearts 3" é detalhado e único Imagem: Divulgação

Para ir de um planeta a outro, você atravessa a galáxia de navinha (mais sobre isso depois), encarando inimigos e encontrando itens no meio do caminho. Depois que você descobre um mundo, você pode voltar a ele sem precisar viajar pelo espaço - basta selecionar ele no mapa e pronto. Desta forma, você pode retornar às fases visitadas antes, caso queira buscar baús que não foram encontrados ou fotografar os outros colecionáveis do jogo.

O estímulo para ir atrás dessas fotos, feitas com uma versão de smartphone do universo "Kingdom Hearts", é destravar itens novos ou equipamentos que você pode fabricar nas lojinhas espalhadas por todos os mundos. Depois de obter esses objetos, o combate do jogo é facilitado, já que os personagens ficam mais fortes ou resistentes com novas armaduras e acessórios, como é em um RPG tradicional.

Jogo que chega velho

Já dissemos que "Kingdom Hearts 3" é um game antiquado em mais de um sentido. Depois de ficar tanto tempo em desenvolvimento, o jogo tem sinais de que sua jogabilidade foi pensada muitos anos antes do lançamento, mas mantida mesmo assim. O combate, seja o normal ou de navinha, é simplório e pouco desafiador, bastando apertar o botão de ataque repetidas vezes até a opção de golpes especiais aparecer.

Mais poderosas, essas habilidades têm origem na keyblade equipada por Sora, em combinações com os parceiros Pato Donald e Pateta ou são situacionais, com a invocação de brinquedos inspirados nos parques da Disney invocados para fazer um estrago. Sem estes especiais, o combate seria uma chatice sem fim, com botões apertados à exaustão até a eliminação de oponentes. Mecanicamente, os poderes nem sempre são bons, mas acioná-los é uma garantia de espetáculo visual, que torna as batalhas rotineiras divertidas.

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Batalhas contra chefes propiciam momentos épicos Imagem: Divulgação

O sistema de combate até tem nuances de bloqueio, esquiva e mágicas, mas passa longe do que acontece em jogos de ação como um "God of War", assim como RPGs da própria Square Enix, como "Final Fantasy XV" e "Dragon Quest XI".

Já a navegação e as batalhas de nave trazem uma boa variedade de poderes, aeronaves e customização. Voar e lutar, porém, é um entrave que o jogador tem que aguentar enquanto se desloca entre um mundo e outro.

Outra relíquia do passado, que ainda sobrevive em RPGs japoneses - essa é pra você também, "Ni No Kuni II" -, é a necessidade de gravar seu progresso em pontos específicos. Tudo bem que os consoles atuais permitem que você suspenda o videogame e retome direto do ponto que parou, mas se a luz acabar, melhor torcer para você ter salvado o jogo no último círculo azul encontrado no mapa.

Narrativa complicada, mas agradável

A própria história de "Kingdom Hearts 3" é contada de um jeito ultrapassado, recorrendo a um número exagerado de cenas cinematográficas para explicar os acontecimentos do jogo. São mais de 200 interrupções na jogatina para sentar e assistir a animação. Se você espera narrativa no contexto da jogabilidade, fique sabendo que sua expectativa será frustrada, já que esse é um recurso quase inexistente no jogo.

Deixando isso de lado, a qualidade da história é boa, com potencial para agradar novatos e veteranos da série. Cada capítulo traz um enredo único e relativamente independente do de toda a série, facilitando a vida de quem não tem ideia quem é a Organização 13 ou porque raios tantas pessoas vestem um sobretudo de couro fechado com zíper.

Lutar ao lado de Hércules, ajudar Woody e Buzz Lightyear ou Rapuzel e Flynn são ações que qualquer um acaba envolvido. Algumas dessas historinhas são recicladas de seus filmes originais, enquanto outras são totalmente novas, mas em ambos os casos elas são tratadas com carinho e muito bem representadas visualmente, seja nas animações ou batalhas.

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Marluxia, um dos vários antagonistas de "Kingdom Hearts 3" Imagem: Divulgação

Entender a grande história que conduz a narrativa do jogo já é mais complicado, mas a Square Enix se esforçou para tornar isso possível. O menu inicial do jogo traz um "arquivo de memórias", com vídeos narrados que resumem bem os acontecimentos da série. Não é o suficiente para uma compreensão completa do enredo, mas o suficiente para saber quem é quem e como os personagens chegaram onde estão no começo da aventura.

Uma informação importante sobre a história é que não existe a opção de jogar "Kingdom Hearts 3" em português, nem na dublagem, nem na legenda. Se serve de alento, os diálogos em inglês até são simples, com frases curtas e com palavras fáceis. Um conhecimento básico da língua deve bastar para a compreensão.

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Habilidades especiais são um espetáculo visual e tornam batalhas mais divertidas Imagem: Divulgação

Uma aventura mágica, com tropeços

O que a Square Enix entregou com "Kingdom Hearts 3" foi uma aventura que captura a magia da Disney e seus personagens, assim como tudo de fantástico que Sora e seus amigos viveram em quase duas décadas de franquia.

É evidente o carinho que a empresa teve na criação do jogo, o que pode ter motivado a longa demora desse lançamento. Ao mesmo tempo, "Kingdom Hearts 3" tropeça em vários quesitos de sua jogabilidade, atrasada em relação aos RPGs e jogos de ação mais modernos.

Apesar dos seus defeitos, "Kingdom Hearts 3" é o tipo do jogo que coloca sorrisos no rosto do jogador, se destacando pela diversão e alegria de seus mundos coloridos.

Nota: 8

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