Cada um por si, Yang no topo

De casa nova, o tricampeão de League of Legends tem a chance de brilhar mais uma vez.

Bruno Pereira Colaboração para o UOL, em São Paulo
Iwi Onodera/UOL

O Top dos Tops

Felipe Zhao, 23, tem tatuagens de personagens de "League of Legends", curte animes e mangás e se diz "cantor de K-Pop nas horas vagas" na bio do Twitter.

Para quem acompanha os torneios profissionais de LoL, porém, ele é Yang, um dos pro-players "veteranos" em atividade no Brasil. Reconhecido por sempre jogar pensando no time, já foi campeão brasileiro três vezes e representou o Brasil em competições importantes no Chile, no México, na Turquia e nos Estados Unidos. Mas os últimos anos não foram bons.

Na primeira etapa de 2019, Yang acabou sendo rebaixado para a segunda divisão do LoL brasileiro com a Vivo Keyd, onde estava desde 2017. A separação do time foi inevitável, e ele viu uma nova chance surgir: foi contratado pela paiN Gaming, outro dos grandes times do país, em uma transação que mexeu com o mercado e com a motivação do ainda jovem pro-player, que luta para ser campeão mais uma vez, agora provando seu valor individual.

Para entender Yang

Referências, apelidos e conquistas

Reprodução Reprodução

Topzera

Em LoL, Yang ocupa a rota do topo. É quase uma ilha: os jogadores ali se enfrentam em 1x1, muitas vezes isolados do resto do mapa. Um bom Top precisa lidar com economia de recursos, inteligência nos duelos e visão global para ajudar o time em momentos-chave. Precisa também de um Caçador (ou "jungler"), que ajuda na coordenação de jogadas.

Reprodução Reprodução

Exodia

Após vencerem três campeonatos invictos em 2015 e 2016, e perderem quando se separaram em 2017, Yang e os parceiros de INTZ Revolta, tockers, micaO e Jockster ganharam um apelido que vem do mangá "Yu-Gi-Oh!": "Exodia" são cartas de batalha fracas quando separadas, mas que decretam vitória automática se forem reunidas.

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

CBLoL

O Campeonato Brasileiro de League of Legends acontece desde 2012 e é organizado pela Riot Games, desenvolvedora do jogo. Desde 2015, o CBLoL acontece em duas etapas, que garantem ao vencedor vaga nos torneios internacionais. Pela INTZ, Yang conquistou três etapas do torneio, e chegou a disputar o Mundial de 2016, nos EUA.

Eu não quero mais ser lembrado pelo Exodia. Eu quero ser lembrado por ser o Yang. Recebemos esse apelido porque jogávamos muito bem juntos, mas acredito que eu tenho muito a mostrar individualmente.

Yang, jogador profissional de League of Legends pela paiN Gaming

Yang, jogador profissional de League of Legends pela paiN Gaming

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

Auge na INTZ e-Sports

Cinco jogadores que dominaram o cenário brasileiro

O jovem Yang surgiu e brilhou com a INTZ e-Sports, time que foi criado em 2014 e se transformou em um dos maiores de League of Legends no Brasil. O jogador encontrou ali companheiros indispensáveis que, entre 2015 e 2016, dominaram as competições no país: Gabriel "Revolta" Henud, Gabriel "tockers" Claumann, Micael "micaO" Rodrigues e Luan "Jockster" Cardoso.

Durante a fase invicta, os "Intrépidos", como são chamados os jogadores da INTZ, não perderam nenhuma série (Melhor de 2 ou de 5) nos torneios oficiais no Brasil, com recorde de 17V-10E-0D -- um aproveitamento de 75,3% dos pontos possíveis. Em partidas únicas, foram 51 vitórias e 14 derrotas, aproveitamento de 78,5%.

Yang e seus parceiros trouxeram um estilo de jogo surpreendente para a época, com ações rápidas e rotações no mapa que deixavam os adversários sem reação. Muito do sucesso, é claro, começava fora do jogo, com preparação da comissão técnica e o papel importante do técnico norte-americano Alexander "Abaxial" Haibel.

Pedi um ano para mostrar que tinha um futuro, e se não conseguisse nada seria o fim. Eu não tinha uma opção, eu tinha que me acostumar.
Yang, sobre a aposta com os pais no início da carreira

O sucesso no Brasil, porém, não foi o mesmo no exterior. A INTZ sofreu duras derrotas em torneios Wildcard, que eram disputados entre regiões emergentes e davam vaga para as competições globais como Mid-Season Invitational (MSI) e Campeonato Mundial. Nesses episódios, a pressão da torcida brasileira crescia sobre o time e os jogadores.

Depois do auge em 2015 e 2016, a formação clássica da INTZ se separou em três grupos, espalhando o conhecimento e o estilo dos Intrépidos para o cenário brasileiro. Nenhum deles, porém, teve muito sucesso em seus novos times.

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

DERROTAS

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

INTZ 1 x 3 Besiktas - 2015

Campeã do CBLoL pela primeira vez, a INTZ foi até Istambul (Turquia) disputar uma vaga no torneio global MSI. O time teve tropeços na fase inicial, disputada em estúdio fechado, mas chegou à final com favoritismo contra o Besiktas, time do famoso clube de futebol turco. "Perdemos aquela final por pura pressão. Éramos muito novos, e na Turquia a torcida era inteira do time da casa", lembra Yang. "Quando a gente dominava a visão e ia para o Barão, eu conseguia ver a torcida gritando para os jogadores turcos, e do nada aparecia alguém pra contestar o objetivo", diz ele sobre como a torcida ajudava a "soprar" o que acontecia dentro de jogo. Em um ginásio com cerca de 4 mil fanáticos do Besiktas, a INTZ fez 1 a 0, mas não segurou a virada.

Ricardo D'angelo/Riot Games Ricardo D'angelo/Riot Games

paiN 3 x 0 INTZ - Brasil - 2016

A INTZ terminou a fase de pontos em primeiro lugar, e chegou confiante para a final. O palco: Allianz Parque, em São Paulo, com cerca de 12 mil torcedores nas arquibancadas, a maioria deles fazendo barulho pela paiN Gaming, que estava em um dia iluminado. "Se a gente jogasse dez vezes aquela final do Allianz, iríamos perder as dez", diz Yang. Nesse torneio, o time estava sem Revolta, que havia ido para a Keyd. Apesar do placar de 3 a 0, as partidas foram disputadas, com muitos momentos emocionantes e chances de vitória da INTZ. "Naquela época nós ainda não tínhamos acompanhamento psicológico, era muito difícil perder um jogo daqueles e conseguir resetar a sua mente e se preparar para o próximo", lembra Yang.

E VITÓRIAS

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

INTZ 3 x 2 DP - 2016

A INTZ, mais uma vez, encarava outro torneio internacional, dessa vez disputado no Brasil. Estavam em jogo duas vagas para o Mundial, e a pedra no sapato era mais uma vez um time da Turquia: a Dark Passage. "Estávamos muito pressionados por conta do nosso histórico de já ter perdido dois torneios Wildcard. Mesmo apoiando, a torcida não acreditava que conseguiríamos vencer os turcos, mas foi a etapa em que nós mais nos esforçamos", diz Yang. Em uma emocionante disputa na Ópera de Arame, em Curitiba, INTZ e Dark Passage disputaram a Md5 partida a partida, terminando em um 3 a 2 de lavar a alma do time brasileiro. "Por isso, a vitória na final foi o momento mais feliz da minha carreira".

Colin Young-Wolff/Riot Games Colin Young-Wolff/Riot Games

INTZ 1 x 0 EDG - 2016

Já no Mundial, a INTZ tinha estreia contra a gigante chinesa Edward Gaming (EDG), um dos melhores times do mundo. "Sabíamos que o desafio era muito maior e as equipes eram melhores, então baixamos as nossas expectativas e trabalhamos duro. Tudo voou pela janela quando ganhamos da EDG". A INTZ colocou a EDG no bolso, sem discussão. Com o mesmo jogo rápido de 2015, Revolta e Yang não deram chance para Clearlove e Mouse, ídolos chineses. Ao final da partida, o mundo aplaudia os jovens Intrépidos. "Não estávamos preparados para aquilo", confessa Yang. Depois do feito inédito, porém, a equipe desmoronou no torneio: cinco derrotas pesadas consecutivas.

INTZ x EDG, Mundial 2016

"É incrível o que a INTZ acabou de fazer"

Iwi Onodera

Eu ainda me divirto com o jogo, mesmo depois de tanto tempo... Apesar de confessar que hoje eu me estresso muito mais do que me divirto, reflexo de que LoL virou realmente um trabalho.

Yang, topo da paiN Gaming

Yang, topo da paiN Gaming

Vida de pro-player

A aposta que deu certo

Quando Yang começou sua carreira profissional, as gaming houses ainda estavam se desenvolvendo no Brasil, e a agenda de um jogador não era tão cheia quanto hoje.

"Com o crescimento dos esports e a natural profissionalização dos pro players, os jogadores passaram a ter que assumir novos papéis além de jogar. Contratos preveem não só treinos e competições, como também divulgação da marca dos patrocinadores, interação com fãs, geração de conteúdo audiovisual, streaming semanal, campanhas, entrevistas e mídia.", diz Daniela Vendramini, advogada habituada aos contratos entre organizações e jogadores.

Em uma etapa de CBLoL, por exemplo, os jogadores disputam as rodadas aos sábados e domingos em um estúdio em São Paulo. Durante a semana, podem ter compromissos como gravação de entrevistas e participação em programas, além de entrarem na rotina da gaming house: treinos dentro do jogo, práticas individuais, sessões de academia.

Hoje em dia tenho outras preocupações, isso consome meu dia e a minha cabeça, então é natural ficar mais estressado.

Na paiN Gaming, ele vai reencontrar Thiago "Djoko" Maia, que hoje é técnico, mas que era jogador da primeira formação da INTZ, em 2014. "Todos ali estavam apostando a sua vida. Éramos muito novos, guardávamos as preocupações extra-jogo para nós mesmos", lembra Djoko.

INTZ x KMV, IWCQ 2016

"Ooooolha o Yang segurando o time todo!"

Yang por...

Leonard Sang/BBL Leonard Sang/BBL

Revolta, jogador da Red Canids

"Mesmo sendo o que menos se comunicava, tudo o que ele fazia era em prol do time. Até hoje acho o Yang um dos melhores do Brasil - e não estou falando de top, estou falando de jogador mesmo. Mecanicamente forte, inteligente dentro de jogo e de fácil convivência, ele nunca deu problema dentro da equipe."
- Gabriel "Revolta" Henud, companheiro de Yang na INTZ e na Vivo Keyd.

Riot Games/Divulgação Riot Games/Divulgação

Melão, comentarista de LoL

"O Yang não só é um dos topos mais consistentes que já vimos no CBLoL, como também é um dos jogadores mais consistentes da história do competitivo brasileiro. É o melhor jogador da posição no Brasil e extremamente versátil, pode ser tanque ou carregador, iniciador ou split pusher, e faz tudo isso com muita destreza."
- Gustavo "Melao" Ruzza, participa das transmissões oficiais de LoL.

INTZ x Dark Passage, IWCQ 2016

"Triiiiiiiiiple Kill do Yang!"

A hora de brilhar

A disputa pelo título e a vaga no Mundial

A contratação de Yang pela paiN Gaming marca a volta da organização bicampeã brasileira à elite do League of Legends no país. A equipe levantou a taça em 2013 e 2015, mas em 2018 acabou rebaixada para o Circuito Desafiante, equivalente à segunda divisão. Na primeira etapa de 2019, conseguiu subir de volta ao CBLoL.

Mesmo com uma equipe consolidada, a paiN viu em Yang uma opção para aumentar suas chances na Segunda Etapa do CBLoL, que tende a ser mais valorizada por dar vaga no Campeonato Mundial. O time já contava com um bom jogador na rota do topo: Marcelo "Ayel" Mello, que também teve passagens pela INTZ. Pode parecer estranho, mas tem se tornado algo comum em League of Legends: com opções na posição, a paiN tem vantagens estratégicas de poder se adaptar de acordo com o adversário ou com as tendências táticas ao longo do torneio.

Eu poderia ficar na Keyd, confortável, ajudar a equipe a se reerguer, mas sei que eles precisam de uma renovação completa. Estava há dois anos e meio na equipe e não vencemos um campeonato, então era claro que eu teria que buscar novos ares.

A estreia do time na Segunda Etapa do CBLoL 2019, porém, não foi das melhores. Contra o Flamengo, um dos favoritos ao título, derrota em menos de 30 minutos e domínio do time de Felipe "brtt" Gonçalves. No dia seguinte, contra a eterna rival CNB, a paiN conseguiu a vitória depois de 50 sofridos minutos em que ambos os times erraram bastante.

É só o começo do campeonato, é claro, e ainda existem muitas rodadas pela frente até a grande final em 7 de setembro, no Rio de Janeiro. Yang encontrará pela frente diversos desafios, e a adaptação à equipe da paiN é apenas um deles.

Mas, com um propósito pessoal de reinvenção, e um objetivo coletivo de voltar ao topo do Brasil, ele parece mais confiante do que nunca para escrever o próximo capítulo de sua história.

No ano passado, no Prêmio CBLoL eu sequer fui indicado... isso bateu muito pesado. Este ano eu queria muito provar para mim mesmo e para o público que, independentemente de onde eu estivesse, ainda tenho a mesma habilidade de quando ganhei três Etapas do CBLoL.

Yang, topo da paiN Gaming

Yang, topo da paiN Gaming

Curtiu? Compartilhe.

Topo