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Grand Theft Auto IV

19/12/2008 16h36

Na praça desde o último mês de abril, quando foi lançado para Xbox 360 e Playstation 3, "Grand Theft Auto IV" vendeu mais de 6 milhões de cópias e arrancou elogios da crítica e público. Agora é a vez do PC receber uma versão do blockbuster, para o alívio dos fiéis entusiastas da plataforma, que ganham algumas melhorias importantes como forma de compensar o atraso. Porém, nem tudo é festa: a conversão para computadores é um tanto relaxada, apresentando instabilidade e pedindo uma máquina absurdamente potente para rodar como deveria.

História de cinema

Videoanálise
Dois fatores são fundamentais para o sucesso deste "GTAIV", como é mais conhecido, e o primeiro deles é a narrativa. Os irmãos Sam e Dan Houser, chefões da Rockstar Games, nunca esconderam sua paixão pelo cinema e aqui utilizam de todos os truques e técnicas narrativas imagináveis para dar ao jogo aquele climão de filme de gângster, sem o tom exagerado, beirando a paródia, de alguns dos episódios anteriores.

A figura principal aqui é Niko Bellic, ex-soldado de conflitos do leste europeu que vai para a América na esperança de conseguir uma vida melhor na companhia de seu primo Roman. Ao desembarcar em Liberty City, porém, descobre que seu parente está envolvido até o pescoço com o submundo do crime local. Para livrá-lo, acaba forçado a se envolver em trabalhos sujos envolvendo roubos de carro, extorsão e até assassinatos. Assistimos então o declínio de um homem marcado pelo passado em uma jornada sem volta - em uma série de missões que testam a integridade moral do protagonista.

Niko é retratado de maneira impecável, que faz com que você torça por ele, por mais moralmente repulsivo que acabe se tornando. Fruto do belo trabalho de caracterização, que tenta embasar e construir seu histórico, suas motivações e delinear sua personalidade com perfeição. E assim também acontece com boa parte do elenco de apoio, como Roman, o amigo Little Jacob e o interesse amoroso Michelle, entre vários outros. Todos são retratados de forma extremamente humana, criando um vínculo entre os personagens, ainda raro de se ver nos videogames, mesmo com tanta tecnologia disponível hoje. É um aspecto tão sabiamente valorizado pelo jogo que existem vários minigames que servem apenas para fortalecer este elo - basta você ligar para alguém para marcar uma partida de boliche, por exemplo.

Cidade viva

O outro fator fundamental para a incrível sensação de imersão é a ambientação. Liberty City, para todos os efeitos, é uma cidade real. Pode parecer exagero, mas nunca uma cidade foi retratada com tanto realismo, criada com tantos detalhes quanto aqui.

'Bad boy' desaponta a mãe
Mesmo que tudo pareça menor do que a área mostrada em "Grand Theft Auto: San Andreas", aqui há muito mais o que explorar e observar. Há uma grande riqueza de minúcias, modelos de construções, traçados de pistas, veículos e, claro, muitas pessoas diferentes nas ruas. Tais figurantes, por assim dizer, agem de uma maneira assustadoramente realista, abrindo guarda-chuva ao verem sinal de gotas caindo, deixando objetos cair quando esbarram em obstáculos, ou mesmo conversando umas com as outras. E há ainda uma série de particularidades - como anúncios, programas de televisão, as já clássicas chamadas nas estações de rádio - que deixam a cidade ainda mais viva, somados aos vários retoques em outros elementos característicos da franquia - como nos roubos de carro, que agora podem ter seus vidros quebrados e precisam de uma ligação direta para a partida.

Este cuidado na ambientação e na narrativa acaba por incentivar o jogador a seguir com a campanha principal, algo que nem sempre acontecia nos jogos anteriores - muitas vezes os jogadores se perdiam nas possibilidades de criar o caos e se esqueciam de prosseguir com a história. Mas ainda que "GTAIV" tente te direcionar para a trama, não há limitações e tudo funciona como um legítimo exemplar da série, desde a primeira cena.

Praticamente todas as mudanças foram para melhor, incluindo a decisão de abandonar os elementos de RPG de "San Andreas", com a possibilidade de treinar na academia, por exemplo. Niko é um herói completo e não precisa de maiores incentivos, portanto a ação é mais fácil e direta, realçada pelo novo sistema de combate. Agora a visão lembra bastante "Gears of War", com a câmera posicionada levemente sobre o ombro do protagonista, do qual também pega emprestado um sistema de cobertura para se esconder de tiros inimigos. O sistema de mira traz elementos de "Crackdown", com a opção de mirar em pontos específicos nos corpos dos inimigos e objetos com leves toques, além do modo de mira livre. Ainda que nem sempre dê certo se esconder dos projéteis dos oponentes, no geral, os combates ficaram muito mais eficientes e agradáveis, longe da bagunça dos jogos anteriores, o que já é uma grande evolução.

A navegação pela cidade também melhorou bastante com o sistema de GPS, que traça em tempo real no seu mapa o menor caminho legal até o ponto desejado, ou seja, você ainda pode tomar algum atalho pela contramão se quiser, e ele irá se encarregar de fazer os ajustes na hora. Com isto, as missões que envolvem transporte ou perseguições ganham nova vida. Tais tarefas se beneficiam também da inteligência artificial da polícia, que foi aprimorada, e da dirigibilidade dos carros, que mudam de acordo com as marcas e condições da pista - deixando a fuga bastante complicada mesmo com as novas opções de ataque em movimento atrás do volante.

Dos consoles para o computador

Mexam-se, garotas!
Com o poder da nova geração de consoles, "GTAIV" pode manter os aspectos clássicos da franquia, mas nem de longe parece com os títulos anteriores. No PC a apresentação é ainda mais rica, mesmo que os gráficos não sejam arrebatadores logo de cara. A diferença está no cuidado com os detalhes, sombras, luzes e texturas, que se destacam mais com as altas resoluções. O modo de maior qualidade no computador é bem mais bonito que nos videogames de mesa, mas não vem barato: o jogo pede uma máquina extremamente potente para rodar com tudo no máximo e mesmo em nossa configuração, capaz de encarar monstros como "Crysis" numa boa, muitos momentos de lentidão e instabilidade (como texturas que somem e pequenos congelamentos) em meio ao caos foram registrados - e mesmo com a recente atualização, pouca coisa mudou.

Apesar de alguns mimos estarem presentes, como a possibilidade de usar suas próprias músicas em uma das rádios ou ativar um editor de vídeos que permite que você capture sua performance e compartilhe, outros inconvenientes assombram a conversão para PC. A mais irritante é a necessidade de estar sempre com Rockstar Social Club, serviço de comunidade da empresa, e o Windows Live rodando para que o jogo se comporte como deve, incluindo na simples tarefa de salvar sua partida ou encontrar jogadores no modo multiplayer.

Este, aliás, é outro que recebeu uma turbinada, podendo contar com até 32 jogadores - dobro do suportado pelos consoles. Nele você é livre para vagar pela cidade como no modo principal para um jogador, como se ela fosse um ponto de encontro para você e seus amigos combinarem as partidas. Há um modo livre, em que você define regras, armas e todo o tipo de opção imaginável e uma série de modalidades muito interessantes e divertidas, individuais ou em grupo, que vão desde perseguições ao estilo "polícia x ladrão" até os tradicionais mata-mata em deathmatch.

Nota: 9 (Excelente)